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Câncer colorretal e metástases: sinais de alerta, rastreamento e quando a cirurgia pode curar

Dr. Marcos Belotto

Dr. Marcos Belotto

Cirurgião Oncologista · Doutor em Cirurgia (H. Sírio Libanês) · 8 min de leitura

Câncer colorretal e metástases: sinais de alerta, rastreamento e quando a cirurgia pode curar

O câncer colorretal — que atinge o intestino grosso (cólon) e o reto — é hoje um dos tumores mais frequentes do Brasil e do mundo. Ao mesmo tempo, é um dos poucos tipos de câncer que pode ser prevenido e, quando descoberto cedo, tem altas chances de cura. Esse contraste é o que torna o tema tão importante: muito do que determina o desfecho depende de informação, atenção aos sinais e exames feitos na hora certa.

Neste artigo você vai entender o que é o câncer colorretal, quais sinais merecem atenção, por que ele está aumentando entre pessoas mais jovens, como funciona o rastreamento e — um ponto que gera muita dúvida — por que a presença de metástases, principalmente no fígado, nem sempre significa que a doença é incurável.

Um câncer comum, mas muitas vezes evitável

No Brasil, o câncer colorretal é o segundo tipo mais frequente tanto em homens quanto em mulheres, atrás apenas do câncer de próstata e do de mama. As estimativas mais recentes do Instituto Nacional de Câncer (INCA) apontam cerca de 46 mil novos casos por ano, o equivalente a aproximadamente 10% de todos os tumores diagnosticados no país (fora os cânceres de pele não melanoma).

O que faz esse número ser, ao mesmo tempo, preocupante e esperançoso é a forma como esse câncer costuma surgir. A maioria dos tumores de intestino se desenvolve lentamente, ao longo de anos, a partir de pequenas lesões benignas chamadas pólipos. Quando um pólipo é encontrado e removido antes de virar câncer, a doença é literalmente evitada. É por isso que se diz que o câncer colorretal é um dos mais "rastreáveis" que existem.

O problema atual é o diagnóstico tardio. Entre 2015 e 2019, cerca de 65% dos casos no Brasil foram descobertos em estágios já avançados. Quanto mais cedo a doença é encontrada, mais simples é o tratamento e maiores são as chances de cura — e essa diferença é enorme.

Sinais de alerta que merecem atenção

Um dos maiores desafios é que o câncer colorretal pode ser silencioso no início. Ainda assim, existem sinais que nunca devem ser ignorados, especialmente se persistirem por mais de algumas semanas:

É importante saber que esses sintomas são comuns a várias condições benignas, como hemorroidas ou infecções intestinais. Ter um deles não significa ter câncer. Mas significa, sim, que vale a pena procurar um médico para investigar em vez de esperar passar.

Sangramento nas fezes nunca deve ser atribuído automaticamente a "hemorroidas". É um sinal que merece avaliação médica, mesmo em pessoas jovens.

Por que o câncer colorretal está crescendo entre os jovens

Durante muito tempo, o câncer colorretal foi considerado uma doença de pessoas com mais de 50 anos. Isso está mudando. Estudos no Brasil e no mundo vêm mostrando um aumento consistente dos casos em adultos mais jovens, inclusive na faixa dos 20 aos 49 anos — um fenômeno que os médicos chamam de câncer colorretal de início precoce.

As causas ainda estão sendo investigadas, e provavelmente envolvem uma combinação de fatores ligados ao estilo de vida e ao ambiente: alimentação rica em ultraprocessados e pobre em fibras, sedentarismo, obesidade, tabagismo, consumo de álcool e, possivelmente, mudanças na flora intestinal. Histórico familiar e algumas doenças inflamatórias do intestino também aumentam o risco.

A consequência prática é dupla. Para o público em geral, reforça a importância de hábitos saudáveis. E para quem tem menos de 50 anos e apresenta sintomas, traz um alerta: sinais de alarme não devem ser descartados só pela idade.

Rastreamento: a chance de agir antes do câncer aparecer

O rastreamento é o exame feito em pessoas sem sintomas, justamente para encontrar pólipos ou tumores em fase inicial. É a ferramenta mais poderosa que temos contra esse câncer.

Diante do aumento de casos em pessoas mais novas, importantes referências internacionais, como a força-tarefa de prevenção dos Estados Unidos (USPSTF), passaram a recomendar o início do rastreamento aos 45 anos para pessoas com risco habitual — antes a recomendação começava aos 50. O rastreamento costuma seguir até por volta dos 75 anos, quando a decisão passa a ser individualizada.

Os principais métodos são:

No Brasil, a disponibilidade e a idade de início do rastreamento podem variar entre o sistema público e o particular, e nem sempre acompanham exatamente as diretrizes internacionais. Por isso, o melhor caminho é conversar com seu médico sobre qual estratégia e qual idade fazem sentido para o seu caso — especialmente se você tem histórico familiar da doença, quando o rastreamento pode precisar começar mais cedo.

Como é feito o diagnóstico

Quando há sintomas ou um exame de rastreamento alterado, o passo seguinte é confirmar o diagnóstico. A colonoscopia com biópsia é o exame central: além de enxergar o tumor, o médico retira um fragmento para análise no microscópio, que confirma se há câncer e de que tipo.

Confirmado o diagnóstico, é preciso estadiar a doença, ou seja, avaliar sua extensão. Isso costuma envolver exames de imagem como tomografia e, no caso do câncer de reto, ressonância magnética, além de exames de sangue. O estadiamento responde a perguntas decisivas: o tumor está restrito ao intestino, atingiu linfonodos vizinhos ou se espalhou para outros órgãos? É essa resposta que orienta todo o planejamento do tratamento.

Metástases não significam, automaticamente, ausência de cura

Aqui está uma das mensagens mais importantes deste texto. Quando o câncer colorretal se espalha, o órgão mais atingido é o fígado, seguido pelos pulmões. Muita gente entende que, havendo metástase, não há mais o que fazer além de controlar a doença. Isso não é verdade para uma parcela significativa dos pacientes.

Diferentemente de outros tumores, o câncer colorretal com metástases no fígado tem uma particularidade: quando essas metástases podem ser completamente removidas por cirurgia, existe chance real de cura ou de sobrevida prolongada. Em pacientes operados com sucesso, a sobrevida em cinco anos — que seria muito baixa apenas com tratamento clínico — pode chegar à faixa de 40% a 50%. Por isso, avaliar se as metástases hepáticas são operáveis é um passo fundamental, e deve ser feito por uma equipe experiente em cirurgia do fígado.

Mesmo quando as metástases parecem, à primeira vista, grandes ou numerosas demais para operar, nem tudo está perdido. Existe uma estratégia chamada quimioterapia de conversão: tratamentos modernos podem reduzir os tumores a ponto de torná-los operáveis, "convertendo" um caso inicialmente inoperável em um caso cirúrgico. É um dos avanços mais relevantes das últimas décadas no manejo dessa doença.

Um diagnóstico de metástase hepática por câncer de intestino merece, sempre, a avaliação de um cirurgião especializado em fígado — antes de assumir que a cirurgia está descartada.

Tratamento cirúrgico: quando e como

A cirurgia é o principal tratamento com intenção de cura no câncer colorretal. Nos tumores localizados, ela consiste em retirar o segmento do intestino comprometido junto com os linfonodos da região, reconectando as partes saudáveis. Boa parte dessas operações hoje pode ser feita por técnicas minimamente invasivas, como a videolaparoscopia e a cirurgia robótica, que costumam oferecer menos dor, recuperação mais rápida e cicatrizes menores, mantendo a qualidade oncológica.

No câncer de reto, o planejamento é ainda mais detalhado e pode incluir radioterapia e quimioterapia antes da cirurgia, para aumentar as chances de retirada completa e preservar, sempre que possível, a função intestinal. Já nos casos com metástases, a cirurgia pode envolver, além do tumor original, a retirada das metástases do fígado ou do pulmão (a metastasectomia), muitas vezes combinada com quimioterapia.

O ponto em comum a todos esses cenários é que as melhores decisões são tomadas por uma equipe multidisciplinar — reunindo cirurgião, oncologista, radiologista e outros especialistas — e em centros com experiência. A sequência e a combinação certas de tratamentos fazem diferença direta no resultado.

O que levar deste artigo

O câncer colorretal reúne, ao mesmo tempo, um alerta e uma boa notícia. O alerta: é comum, está aumentando entre os jovens e ainda é diagnosticado tarde demais na maioria dos casos. A boa notícia: é dos poucos cânceres que podem ser evitados com rastreamento, é altamente curável quando descoberto cedo e, mesmo com metástases no fígado, oferece chances reais de cura em muitos pacientes.

Se você tem 45 anos ou mais, ou histórico familiar da doença, converse com seu médico sobre rastreamento. Se você tem sintomas persistentes, não os ignore por causa da idade. E se você ou alguém próximo recebeu um diagnóstico com metástases, busque a avaliação de uma equipe especializada antes de concluir qualquer coisa sobre as possibilidades de tratamento.

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*Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui a avaliação médica individual. Cada caso tem particularidades, e as decisões sobre rastreamento, diagnóstico e tratamento devem sempre ser tomadas em conjunto com o seu médico.*

*Fontes: Instituto Nacional de Câncer — INCA (Estimativa de incidência de câncer no Brasil, 2023–2025) e US Preventive Services Task Force (Colorectal Cancer: Screening, recomendação de rastreamento a partir dos 45 anos).*

Dr. Marcos Belotto

Autor

Dr. Marcos Belotto

Cirurgião Oncologista. Doutor em Cirurgia pelo Hospital Sírio Libanês (2023). Pioneiro em cirurgia pancreática robótica no Brasil. Membro da SBCO, IHPBA e SOBRACIL.

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